quinta-feira, 16 de maio de 2013
E se o Brasil fosse Uma Monarquia?
E se o Brasil fosse uma monarquia?
Para Fábio Wanderley Reis, pouco mudaria: o
Poder Moderador seria mais um atrativo para a corrupção
Se o Brasil tivesse continuado a ser uma monarquia até
hoje, pouca coisa seria diferente: o Poder Moderador representaria custos a
mais para o país, encenaria um papel apenas simbólico para a sociedade e
haveria mais uma frente para a corrupção, na opinião do cientista político
Fábio Wanderley Reis.
Para ele, mesmo se não houvesse a instauração da República,
em 1889, a monarquia não duraria muito mais: "A monarquia era candidata
perene a ser vítima das turbulências sociais e econômicas".
O professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais
brinca com aqueles que acenam com o Reino Unido como exemplo de que a monarquia
pode criar uma boa democracia: "Se me dessem a Inglaterra, eu não
precisaria de monarquia nem de rei para fazer uma
democracia". (ERNANE GUIMARÃES NETO)
FOLHA - Como seria o Brasil se tivesse permanecido
monárquico?
FÁBIO WANDERLEY REIS - Não acredito que haveria grande
diferença. Certamente os fatores que fazem a dinâmica econômica e social da
vida brasileira não seriam afetados de modo importante. O que aconteceu na
Proclamação da República, a monarquia pagando as conseqüências do fim da
escravidão, provavelmente ocorreria em outras circunstâncias.
Quando houve [em 1993] o plebiscito para escolher
monarquia, de um lado, e de outro a disputa entre presidencialismo e
parlamentarismo, havia gente defendendo a sério a monarquia, apontando o caso
britânico como exemplo de democracia. Eu respondia: "Se me dessem a
Inglaterra, não precisaria de monarquia nem de rei para fazer uma
democracia". Com o legado complicado que temos, em particular o
escravista, dificilmente teríamos um fator benigno na manutenção da monarquia.
FOLHA - Há quem a defenda argumentando que a nobreza não
tem interesse em corrupção. Ficaram exemplos disso?
REIS - Não acredito que a nobreza não seja corrupta
por definição. Ser nobreza é garantia de uma condição socioeconômica, mas isso
não a isenta. Eles não são feitos de outra massa, o sangue não é realmente
azul. É uma questão de oportunidade.
FOLHA - E houve aqueles que, não sendo da nobreza, tentaram
chegar a ela pelos meios mais variados...
REIS - Nesse sentido, seria um estímulo à corrupção.
FOLHA - E a relação entre massa e elite? Na monarquia, a
elite já é privilegiada e não precisa competir com as massas, portanto o
capitalismo funciona diferentemente, não?
REIS - Esse pressuposto só é válido se, além de
monárquico, o regime for absolutista. Com o regime constitucional, democrático,
há competição entre elites. Tem-se a figura do monarca exercendo um papel
simbólico, enquanto a liderança efetiva está no Parlamento. Portanto, há
competição.
É interessante que as elites sejam porosas, no sentido da
mobilidade social, de um país dinâmico com uma elite autêntica -não
simplesmente um traço socioeconômico, no sentido em que se usa a palavra hoje.
Não há razão para imaginar que teríamos uma sociedade mais parecida com esse
modelo por causa da monarquia.
FOLHA - O que seria diferente?
REIS - Teríamos um aparato estatal envolvendo a
monarquia. A família real seria mantida pelo erário público, com alguma função
simbólica. Mas a suposição de que duraria até hoje é precária; a monarquia era
candidata perene a ser vítima das turbulências sociais e econômicas do período
e posteriores.
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